Por que o teclado do celular aprende as suas palavras e como apagar o que ele aprendeu
Como o corretor automático prevê a próxima palavra, por que ele passa a sugerir gírias e nomes que você usa, o que acontece com a privacidade e como limpar o histórico no Gboard e no SwiftKey.
Você digita “bom” e o teclado já sugere “dia”. Escreve o apelido de um amigo duas ou três vezes e, na quarta, ele aparece como sugestão. Troca uma palavra com frequência e, de repente, o corretor para de “corrigir” o seu jeito de escrever. O teclado do celular aprende, e esse aprendizado acontece o tempo todo.
Às vezes isso é ótimo. Outras vezes, o teclado grava um erro de digitação e passa a sugerir a palavra errada para sempre. Este artigo explica como o teclado prevê palavras, de onde vem o que ele aprende e como limpar esse aprendizado quando ele atrapalha.
Como o teclado adivinha a próxima palavra
A sugestão da próxima palavra vem de um modelo de linguagem, um programa treinado com grandes volumes de texto para estimar quais palavras costumam vir depois de outras.
Nos primeiros teclados com previsão, a técnica era contar sequências. Se, num grande conjunto de textos, “bom” era seguido por “dia” muitas vezes, o teclado passava a sugerir “dia” depois de “bom”. Os teclados atuais usam redes neurais, que olham um contexto maior da frase e conseguem sugestões mais naturais, mas a ideia básica é a mesma: calcular as palavras mais prováveis a partir do que já foi escrito.
A correção automática usa a mesma lógica, com um passo a mais. O teclado sabe quais letras ficam perto umas das outras. Quando você digita “vasa”, ele considera que o seu dedo pode ter escorregado do “c” para o “v”, ou do “a” para o “s”, e compara as palavras possíveis com o que faz sentido na frase. “Casa” ganha.
O que o teclado aprende com você
O modelo que vem com o teclado é igual para todo mundo que usa o mesmo idioma. O que torna o seu teclado diferente é uma camada pessoal, que aprende com o que você digita.
Palavras novas. Nomes de pessoas, marcas, gírias e termos do seu trabalho que não estavam no dicionário entram no seu dicionário pessoal depois de digitados algumas vezes.
As suas sequências. Se você sempre escreve “tô chegando”, o teclado passa a sugerir “chegando” depois de “tô”, mesmo que outra palavra fosse mais comum para outras pessoas.
As suas correções. Quando você desfaz uma correção automática e mantém a palavra original, o teclado entende que aquela palavra é válida para você.
Os seus contatos, em alguns casos. Alguns teclados podem usar os nomes da agenda para sugerir nomes corretamente, se você der essa permissão.
Digitação por deslize: como o teclado adivinha o caminho
Na digitação por deslize, você passa o dedo pelas letras sem levantar, e o teclado entende a palavra. Parece ainda mais difícil do que corrigir um toque errado, porque o dedo passa por cima de muitas letras que não fazem parte da palavra.
O teclado trata o caminho como um desenho. Cada palavra do dicionário tem um desenho ideal, a linha que liga as suas letras na ordem certa. Quando você desliza, o teclado compara o seu traço com os desenhos das palavras possíveis, dando mais peso aos pontos onde o dedo mudou de direção ou desacelerou, que costumam ser as letras de verdade.
Várias palavras podem ter desenhos parecidos. “Casa” e “cada”, por exemplo, passam por regiões próximas do teclado. Aqui entra de novo o modelo de linguagem: entre os desenhos parecidos, o teclado escolhe a palavra que faz mais sentido na frase. As outras opções aparecem na barra de sugestões, para você trocar com um toque.
Assim como na digitação comum, o deslize também aprende com você. Palavras que você usa com frequência ganham prioridade quando o desenho é ambíguo.
E a privacidade?
Saber que o teclado aprende com tudo o que você digita levanta uma dúvida natural: para onde vão esses dados?
Os grandes teclados trabalham para manter o aprendizado pessoal no próprio aparelho. O Google já descreveu publicamente o uso de uma técnica chamada aprendizado federado no Gboard. Nela, o aparelho melhora uma cópia do modelo com os seus dados e envia apenas um resumo da atualização, combinado com o de muitos outros aparelhos, em vez do texto que você digitou.
Alguns cuidados valem para qualquer teclado:
- Campos de senha. O Android marca os campos de senha, e os teclados, em geral, não aprendem nem sugerem o que é digitado neles.
- Modo anônimo. O Gboard entra num modo anônimo quando você usa uma aba anônima do navegador, e nesse modo não aprende as palavras digitadas.
- Teclados de terceiros. Um teclado instalado da loja pode, em tese, ver tudo o que você digita. Prefira teclados de empresas conhecidas e desconfie de teclados desconhecidos que pedem acesso à internet sem motivo claro.
Gboard e SwiftKey
Dois dos teclados mais conhecidos no Android são o Gboard, do Google, que vem de fábrica em muitos aparelhos, e o SwiftKey, da Microsoft, que vem em outros. Os dois têm previsão de palavras, correção automática, digitação por deslize e ditado por voz.
O SwiftKey ficou conhecido pela previsão personalizada e permite fazer backup do que aprendeu numa conta Microsoft, para levar o seu jeito de escrever para outro celular.
Como apagar uma sugestão errada
O caso mais comum é o teclado aprender um erro de digitação e começar a sugeri-lo.
No Gboard:
- Comece a digitar até a sugestão errada aparecer na barra acima das teclas.
- Toque e segure a sugestão.
- Arraste para o ícone de lixeira que aparece, ou toque na opção de remover.
No SwiftKey, o gesto é parecido: toque e segure a sugestão na barra e confirme a remoção.
Como apagar tudo o que o teclado aprendeu
Se o teclado está cheio de sugestões estranhas, ou se você vai passar o celular para outra pessoa, dá para limpar o aprendizado inteiro.
No Gboard:
- Abra as configurações do Gboard, pelo ícone de engrenagem na barra do teclado ou em Configurações do Android, Sistema, Idiomas e entrada.
- Procure a opção de configurações avançadas.
- Toque na opção de excluir palavras e dados aprendidos e confirme.
No SwiftKey:
- Abra as configurações do SwiftKey.
- Procure a área de dados ou de conta.
- Use a opção de limpar os dados de digitação e confirme.
Os nomes exatos dos menus mudam com as atualizações. Se não encontrar, procure nas configurações do teclado por “aprendidos”, “dados” ou “limpar”.
Dicas para um corretor que ajuda mais do que atrapalha
- Adicione palavras ao dicionário pessoal. Nomes e termos que você usa muito podem ser incluídos manualmente, sem esperar o teclado aprender.
- Use atalhos. No dicionário pessoal, dá para criar atalhos: digitar “end” e receber a sugestão do seu endereço completo, por exemplo.
- Ative o idioma certo. Se você escreve em português e inglês, adicione os dois idiomas. O teclado alterna as sugestões conforme o que você digita.
- Desative a correção automática, se ela incomoda. Dá para manter as sugestões na barra e desligar só a troca automática da palavra.
- Confira antes de enviar. O corretor acerta muito, mas os erros mais embaraçosos são justamente as palavras certas no lugar errado.
Perguntas frequentes
O teclado envia o que eu digito para a empresa?
Os grandes teclados afirmam processar o aprendizado pessoal no aparelho e usar técnicas que evitam enviar o texto digitado. Recursos como tradução, pesquisa e ditado por voz, porém, podem enviar dados para os servidores. As configurações de privacidade de cada teclado mostram o que está ativado.
Por que o corretor troca palavras certas?
Porque ele calcula probabilidades. Quando uma palavra rara é parecida com uma comum, a comum às vezes ganha. Desfazer a correção algumas vezes ensina o teclado a aceitar a sua palavra.
Trocar de celular apaga o que o teclado aprendeu?
Depende do teclado e da conta. O SwiftKey permite backup numa conta Microsoft, e o Gboard pode sincronizar o dicionário pessoal com a conta Google, dependendo das configurações. Sem backup, o teclado começa do zero no aparelho novo.